Que a “paz da luta” siga nos guiando em 2017

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Foram dias difíceis, esses de 2016, tanto quanto foram espetaculares os exemplos de resistência de nosso povo. As imagens dos milhares de meninos e meninas “secundas” que, ocupando e defendendo a escola pública, muito nos ensinaram e tanto aprenderam nos caminhos da luta direta. De tal modo que sua energia contaminou alunos de universidades e institutos federais que, país afora, também lutaram ocupando suas instituições de ensino, levantaram as mesmas bandeiras e extravasaram uma força juvenil tão envolvente que se pôde sentir pelos olhos e contos de seus próprios mestres.

Deste ano também ficam as lições dos inúmeros casos onde, literalmente, “o morro desceu” tendo à frente as mulheres e mães negras protestando contra o genocídio sofrido pelos jovens da periferia e, em especial, pelos seus filhos, vitimados pela violência policial. Uma dor explodida em luta, luta essa de classe e também feminista, luta precedida, transversalizada e prosseguida dos atos, protestos e manifestações contra a violência e o machismo. Fatos que, indiscutivelmente, fortalecem a luta de classe a ponto de encarar e derrubar, conjunturalmente, ícones políticos do nojento machismo.

Vimos ainda a força que, dos “cafundós” mais nativos de nossa gente, das terras do Mato Grosso, que seguiram fazendo brotar as ações de retomada das terras Guarani-Kaiowá. Eles o fizeram sob a mira, sob a bala e sob morte dos seus entes que ousam defender as suas terras contra o posseiro-latifúndio. Isso nos impulsiona, pois trata-se de um exemplo de combate que exala o cheiro classista tão necessário aos nossos dias. Foi assim por lá, antes e durante esse 2016 e, certamente, está anunciado que a flecha dessa luta atravessará o ano vindouro.

Desejar a “paz da luta” para 2017, nada mais significa que bebermos na fonte inesgotável de resistência, persistência e combate dos milhões de demitidos, desempregados e impedidos de acesso aos seus direitos trabalhistas básicos. Parte desses homens e mulheres, mesmo assim, não nos faltaram à luta de classes. Desde antes, bem como nesse ano que termina, esses operários esboçaram e deram vida aos primeiros brotos de organização de desempregados dos dias atuais. Forjados, também são esses que, no combate, forjam o futuro.

Essa “paz da luta” que desejamos também habitou e mora na garra dos milhões que se levantaram, que travaram rodovias, que ocuparam e ocupam o território urbano na luta por moradia. Essa nossa gente que, em 2016, protagonizou mobilizações de enorme grandeza, o faz por entender que esse solo, urbano ou rural, pertence a quem nele trabalha. “Se nos pertence, se nos tomaram, se nos negam o direito de morar, agente vai lá e pega. A saída é ocupar e resistir!”, assim cantaram, inclusive nas tantas marchas e ações unitárias contra os ataques dos governos. Assim eles o fizeram, assim o farão em 2017.

Houve duríssimos ataques, mas nossa resistência foi imensa. Tivemos um ano em que muitas greves aconteceram, espalhadas e se espalhando nas fábricas montadoras em luta contra as demissões e em defesa de mais direitos. Seja no Paraná, em Goiás, no ABC ou Vale do Paraíba. Foi assim também nos estaleiros que se viram cercados, do Rio ao Rio, do “sul” à “janeiro”, por dezenas de milhares que, partindo de suas necessidades objetivas, traduziam o grito mais coloquial do movimento operário brasileiro hoje: “Nós não vamos aceitar pagar por essa crise”.

Quase que numa mesma toada, as agências bancárias foram bloqueadas pelos piquetes da mais longa greve dessa categoria. Agora estamos vendo que parece que o ano não acaba, pois, de um lado, vemos os petroleiros suspendendo uma greve nacional e, ao mesmo tempo, preparando sua retomada para os primeiros dias de janeiro, na outra ponta os Servidores da USP resistem a uma arbitrária ameaça de despejo de sua sede sindical por parte da reitoria daquela instituição. Está sendo assim em 2016, essa é a dinâmica que se aponta para 2017. Crise política e econômica e aumento da polarização política e social.

No terreno da superestrutura do poder político vimos que, ancorado na ruptura da massa trabalhadora com aquele governo, caiu o governo petista. Em seu lugar “assume” o governo de parcela de seus ex-aliados. Muda o governo, mas a política segue sendo a mesma e os ataques contra nossa classe só se aprofundam. Executa-se o PL 257, iniciado pelas mãos do PT, e vem o Governo Temer com a PEC 55 e aplica um congelamento dos investimentos na saúde e educação por 20 anos. Impõe uma política sem aumento de salários e sem concursos. Em paralelo, avança na tentativa de desmonte estrutural e ideológico do ensino médio e um longo etc de ataques. Não satisfeitos, governo, patrões e Congresso iniciam suas Reforma da Previdência e Trabalhista buscando retirar direitos históricos, sociais, trabalhistas e previdenciários.

Todas essas medidas, aplicadas no segundo semestre desse ano, são patrocinadas por um governo sem nenhum apoio popular que, como a quase totalidade do parlamento brasileiro, está enfiado e envolvido até a medula, juntamente com as empreiteiras denunciadas na operação lava-jato, num profundo e turvo mar de corrupção. Foi em meio a tudo isso que se desenvolveram as lutas de nossa classe durante 2016 e é para buscar superar essa situação que, cremos, em 2017 mais lutas virão. O desafio é unificá-las. É dar a essas lutas um sentido político comum e fazermos parir a tão necessária Greve Geral nesse país.

Nós seguiremos empenhados e insistentes quanto à construção da mais ampla unidade possível pela construção da Greve Geral. Cremos que, dada a demonstração de disposição e luta de nossa classe é possível realizá-la. Pensamos que caso houvesse empenho e determinação política da maioria das direções das grandes organizações do movimento de massas de nosso país, em especial das centrais sindicais, a mesma já poderia ter ocorrido.

Analisamos que, pelas inúmeras jornadas e dias nacionais de luta que realizamos esse ano, acumulamos forças que nos permitem avançar, parar o país, derrotar as reformas, esse governo e os corruptos desse congresso. Vimos essa força na jornada nacional dos servidores públicos em setembro. Na força da greve dos docentes universitários, no dia nacional de paralisação dos metalúrgicos, nos dias 11 e 25 de novembro, dias nacionais de paralisação e protestos, no “Ocupa Brasília” que, com cerca de três dezenas de milhares em marcha, enfrentou a repressão de Temer no dia da votação da PEC.

Observamos que essa força seguiu se expressando em ideias e ações, como por exemplo “No Ocupa Tudo!” de 15 de dezembro. Agora a luta se espraia por estados, municípios e regiões e habita na força dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, servidores municipais de Teresina e tantos outros “torrões” das terras brasileiras. Eles se levantam contra os pacotes de ajustes e atrasos no pagamento de seus salários, impostos pelos governos estaduais e municipais; Eles e elas alimentam o nosso combate mais coletivo; Eles e elas irrigam a possibilidade de nossa vitória.

Com base nessa compreensão e cientes de nossos desafios é que desejamos a todos os lutadores e lutadoras: “Que a paz da luta siga nos guiando em 2017”!

Que juntos possamos derrotar os governos, os patrões e os banqueiros, ou seja, derrotar os agentes do imperialismo. Afinal, nossa vitória só é impossível, até que ela se torne necessária!

Como resgatam os lutadores quilombolas: Estamos em campo a tratar da nossa libertação!

Que venha 2017!

Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas

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